La Revancha del Tango - Cronicas Argentinas
sexta-feira, outubro 31, 2003
 
V CRONICA DO NOVO MUNDO
Passaram sensivelmente nove meses desde que cheguei a esta bela cidade baptizada em 1536 por Pedro de Mendoza de Ciudad de Santa Maria del Buen Ayre.

Nove meses??? Epa, quer dizer que terminou o Programa Contacto.... putz grila ta na hora do pau (traducao: chegou a hora de ir embora).

Esta e a ultima cronica. Em jeito de resumo escolhi o que considerei “o melhor” e “o pior” do que por ca vi e, desde ja desafio os restantes contacteantes a fazerem algo do genero sobre os seus respectivos paises. No final vem a parte melointrospectiva da hora da despedida.

Sim, ja estou de ferias (eufemismo para desempregado) e de malas aviadas. Neste preciso instante estou com a mochila as costas para partir para o Manchu Picchu. A viagem e de largos milhares de kms em autocarro e, apesar de ter como destino a Cidade Sagrada do Imperio Inca, tera varias paragens pelo caminho - mais umas voltinhas pela Argentina, Chile, Peru e sul do Brasil. Na medida do possivel vou enviando cronicas e fotos. O regresso a Lisboa e para o Natal.

Bom, comecemos entao pelo melhor.

O melhor – a quota de bom humor
E mais que conhecida a crise argentina. De facto Argentina esta em crise, e, segundo se diz em jeito se piada, a unica saida da crise e o Aeroporto Internacional com uma viajem de ida para a Europa. Os niveis de desemprego sao altissimos, e os que trabalham recebem de menos e trabalham de mais. As pessoas nao acreditam nos politicos, nao tem poder de compra... etc, etc, etc. No entanto, e apesar de tudo isto, querem aproveitar a vida e mantem o que se pode chamar a “quota de bom humor”.

Ao longo das cronicas fui descrevendo um bocado disto, da vontade de viver dos Argentinos. Nao ha dinheiro para ir a um bar junta-se em casa e divide-se a bebida, nao ha dinheiro para uma camisa importada compra-se uma argentina. E tudo isto e feito com um sorriso nos labios, com uma piada a mistura, com um sorriso aberto.

Se juntarmos a isto a “vaidade argentina” o facto e que nao se percebe que este pais esta em crise. Nao se percebe que ha menos de dois anos o estado “declarou falencia” e apoderou-se da riqueza das familias acumulado nos bancos. Bom, antes de mais aclarar o que eu chamo de “vaidade argentina”. O argentino gosta de se arranjar bem (entao as argentinas.... uuuuhhhhmmm), gosta de ser sofisticado, de estar bonito, de ter a casa bonita, de ser requintado, e orgulhoso se si e do seu pais. Por isso nao quer perder tempo com lamurias, com tristezas, nao quer ser um coitado.

E como e possivel ser-se coitado na Paris da America do Sul? Num pais com tanta diversidade geografica. Num pais que tem o Glaciar Perito Moreno, as Cataratas do Iguazú, Puerto Madrin onde as baleias vao ter as crias, Bariloche e as suas estancias de que nada se envergonham quando comparadas com as melhores europeias, os Andes e todas as suas lendas, Mendoza e os fabulosos vinhos, Salta, Jujuy, Cordoba, a Patagónia, Terras del Fuego, tambem conhecido como o “Fim do Mundo...”

Com e possivel ser-se coitado na Terra do melhor jogador de Futebol de todo o sempre, o Pibe de Oro el gran Maradona, na terra do homem cuja imagem representa a Revolucao – ele mesmo El Che; a terra de Evita, do Fangio, do Borges, do Piazzola, do Gardel. A terra da avenida mais larga do mundo, a terra com o teatro mais bonito do continente americano... e tanto mais, e tanto mais.

Por tudo isto o Argentino gosta de receber, gosta que as pessoas se sintam bem, que falem bem deles. Com tudo isto, o facto e que se respira uma forma diferente de estar na vida, uma forma diferente de lidar com os problemas. Tristezas nao pagam dividas... acho que ja percebi o significado deste ditado popular.

O pior – pobreza e a colonizacao
Tambem o pior esta relacionado com a crise argentina. A crise atingiu a quase totalidade da populacao e teve consequencias dramaticas para a classe media, mas o que me chocou mais foram as consequencias para as classes pobres. A pobreza em Buenos Aires e de partir o coracao.

A crise trouxe para a cidade e para as ruas familias inteiras. Ve-se familias que vivem pelas ruas, que dormem em baixo de qualquer ombral, que se abrigam com qualquer trapo para sobreviver ao frio inverno... criancas que crescem no meio de sacos do lixo. Estas familias estavam no campo mas, com a crise, viram-se obrigados a vir para a cidade onde sempre ha um pedaco de carne que sobra de uma refeicao e que eles vao respigar nas traseiras das casas ou nas sobras dos restaurantes.

Reciclagem? Nao e preciso, todos os restos de todas, todos os sacos do lixo vao ser revolvidos durante a noite em busca de qualquer coisa de valor como uma garrafa de vidro vazia, ou o cartao, ou um par de sapatos, ou uma lata de atum fora do prazo...

Depois ha os que pedem nas ruas... e ha de tudo. Corta o coracao ver a velhota da cadeira de rodas que alguem todos os dias poe numa das ruas principais e que fica todo o dia a dormir envolta em xailes e com um caixa de esmolas diante. Parte o coracao ver criancas que constante e irritantemente dizem “una moneda por favor, una moneda por favor” doi ver bebes que servem para ser mais um motivo para pedir esmolas... bebes que vao ser criancas que vao repetir insistentemente “una moneda por favor... una moneda por favor” e que quando ja nao sao tao criancas para receber moedas vao respigar nas traseiras dos predios e depois vao ter filhos que possam ser motivo de uma esmola maior...

Sempre fui contra esmolas e raramente dou dinheiro, e que sempre acreditei no proverbio “se queres matar a fome por um dia da uma esmola, se queres matar por toda a vida ensina a pescar”. Faz sentido num pais europeu em que “so passa fome quem quer”, mas aqui..., aqui essas teorias nao querem dizer nada. As pessoas sao pobres e tem fome... fome, as pessoas tem fome e nao tem que comer e onde buscar comida senao em sacos do lixo... e sabendo isso nao e nada facil ouvir uma crianca que diz insistentemente “una moneda por favor, una moneda por favor”... se nao o e em nenhum lugar, acreditem que aqui e bastante mais doloroso...

E a sociedade vai vivendo com esta pobreza, algumas pessoas aprenderam a viver com tudo isto e a outras nem sequer lhes importa... viver na america do sul e conviver com as maravilhas mas saber que existe pobreza, enormes discrepancias sociais, que a inseguranca esta em todo o lado, que muita gente tem os horizontes muito limitados... muito limitados mesmo, quais serao os sonhos de uma crianca de uma bicha (e como aqui chamam as favelas), o que e o mundo para um bebe que chora sem que ninguem o acuda, a uma crianca que se habituou a agressividade, ao abandono, a dor. Viver na America do Sul e este paradoxo, e viver com o mais belo e o mais cruel da natureza.

Viver na America do Sul e conviver com o verdadeiro significado a palavra colonizacao. Ha 500 anos portugueses e espanhois descobriram uma terra que ha muito estava descoberta. Tomamos pela forca a terra aos seus legitimos donos e fizemos deste solo nosso. Fizemos desta terra a terra para realizar os nossos sonhos mesquinhos de riqueza, poder, luxuria... fizemos isso ha 500 anos e continuamos a fazer. Na America do Sul Seguranca Social e uma piada, a reforma e uma anedota. Os policos roubam descaradamente, os ricos sao cada vez mais ricos e querem ser ainda mais ricos, os pobres vao ser sempre pobres. Os pobres tem fome a mais e educacao a menos.

Colonizacao e isto. E eu invejar a casa do meu vizinho e, como sou mais forte, faco minha a sua casa. Ignoro os seus direitos, as suas vontades e apenas me preocupo com a minha vontade de ter, de ter mais e mais, e os meus filhos vao ser ainda mais ricos e soberbos que eu e os filhos dele ainda mais pobres e resignandos que os dele. Fizemos isto ha 500 anos e continuamos a fazer. Tentamos fazer em Angola mas o angolano nao permitiu, tentaram os Indonesios fazer em Timor e o timorense libertou-se. Fazem os Americanos no Iraque (com a triste conivencia do governo portugues), fazem os chineses no Tibete... e por ai em diante...

E depois do comeco o que vier vai comecar a ser o fim
Nao quero ser muito pesado nesta ultima cronica, por isso, adiante.

Passados que estao os tao famosos 9 meses o sentimento que prevalece e a alegria..., contentamento. Quando embarquei nesta aventura que e o Curso de Gestao Internacional do ICEP tinha vontade de voltar a viajar, vontade de voltar a trabalhar noutro pais, vontade de sair, vontade de novas experiencias, de ser mais rico, de crescer como pessoa. Nao hesitei em abandonar um contrato de trabalho estavel numa empresa de futuro, nao hesitei em mudar habitos e rotinas que de alguma forma incluiam em si alguma seguranca e bem estar. Nao hesitei e embarquei na aventura.

Sei que muito que deixei de viver em Lisboa, muito se passou na minha ausencia, a terra girou, Lisboa mudou, as minhas sobrinhas cresceram, os meus amigos e os meus irmaos ficaram mais gordos, o Bairro Alto foi fechado ao transito, a nova Catedral da Luz foi inaugurada... mas tambem sei que o Carlos Cruz continua a ser noticia nacional, que as minhas sobrinhas vao continuar a crescer, que os meus amigos e irmaos vao continuar a engordar, que o Durao continua no Poder, que o benfica vai continuar a perder...

Mas agora, para mim Buenos Aires ja nao e uma cidade distante. A America do Sul ja nao e uma terra do outro lado do Atlantico, e uma imagem real. E agora o desafio de estar longe da minha Lisboa um ano consecutivo ja nao e uma meta assustadora, mas uma barreira ultrapassada.

E, com isto tudo, afeicoei-me a Buenos Aires. Na hora de mais uma partida sei que uma parte de mim vai ca ficar. Sim, apeguei-me às pessoas, aos habitos a minha maravilhosa casa, aos amigos do bairro e a tantas outras coisas que quando cheguei me pareciam estranhas e agora sao o meu habitat natural, a minha vida, a minha rotina que inclui em si mesmo alguma seguranca e bem estar.Ja sei o nome de muitas ruas de cor, sei o nome de vizinhos e eles sabem o meu. Sei o estado de humor dos meus colegas simplesmente pela forma como dizem “buenos dias” e eles ja se habituaram ao meu portunhol. Nao preciso pedir o tabaco no quiosque ou o cafe na pastelaria...

Mas nao estou nostalgico, nao estou triste, pelo contrario, estou alegre! E que o ser humano e mesmo um animal de habitos, e o meu habito e estar constantemente a mudar de habitos

E duro partir, mas e tao belo chegar! E partir em si tambem contem beleza.

Estou alegre porque, em primeiro lugar era este o plano, a ideia era esta mesmo a de ficar em Buenos Aires 9 meses, portanto esta despedida e a crónica de uma morte anunciada. Eu sabia que me ia e toda a gente sabia que eu me ia. Este e sem dúvida o factor mais importante. Mas tambem a ha a excitacao de comecar uma nova etapa que, acredito seja ainda melhor que todas as que vivi.

Ganhei muito com o Programa Contacto. Conheci pessoas fantasticas que acredito vao continuar a fazer parte e a enriquecer a minha vida, passei por situacoes novas, conheci lugares novos, tive novos desafios, novas alegrias, novas tristezas. Enfim... vivi novas realidades, conheci novos mundos.

Tive tambem o gosto de partilhar algumas destas aventuras com quem tem interesse em conhece-las. Para isso surgiram estas Crónicas do Novo Mundo e o site de fotos. Inicialmente so para familia e amigos mais restritos, mas achei piada em alargar a um grupo mais alargado de pessoas – às pessoas que querem partilhar destas aventuras, as pessoas que, como eu, gostam de ler cronicas.

Bom, voltanto a partida, a minha partida de Buenos Aires.

A imobiliaria ja alugou o meu apartamento e durante estas semanas andei a mostrar a casa aos interessados... estranho... tao estranha que foi a sensacao real que ia partir. Sim, tem boa luz, os vizinhos sao sossegados, os ares condicionados funcionam na perfeicao... e sempre me saia um “voy a estranhar mucho este lugar, espero que lo desfruten tanto cuanto yo...”. Nao fiz alteracoes, esta praticamente igual a como o encontrei, ja ha muito retirei os pequenos toques pessoais..., as fotos, os livros, as velas, os cds... ja ha muito que me fui habituando a ideia.

E as pessoas, as despedidas... cada vez mais menos me sei despedir...

Pela frente umas nada merecidas mas muito cobicadas ferias. Sim, nada merecidas porque afinal a sensacao com que fico e que estive sempre em ferias. Nao, nao digo isto por nao ter trabalhado e por nao ter tido alturas de aperto, mas sim porque como fora do trabalho a descoberta e constante o sentimento com que fico e que estive sempre em ferias. Todos os fins de semana havia algo novo por fazer, alguma coisa nova por conhecer, enfim um pouco de turismo.

Com tudo isto o que posso dizer e que foram 9 meses MUITO INTENSOS. Parece que vivi tres ou quatro vidas! Tanta coisa sucedeu, tantos periodos diferentes, tantas descobertas, tantas sensacoes e emocoes, tanta coisa nova que se penso neste numero: “9 meses”. 9 meses parece-me pouco para tanta coisa! Uma eternidade. Ao que parece tambem fisicamente me alterei. Ja nao uso barbicha tipo mafioso, o cabelo cresceu, emagreci... com isto tudo quase que nao me deixavam entrar na Argentina quando regressava do Uruguai porque nao me reconheciam atraves da fotografia do passaporte que tirei ha um ano...

Ha mais uma coisa que me resultou interessante. Nao e nada de novo, mas nunca como agora percebi o alcance da net. O meu antigo mundo girou sem a minha presenca e muita coisa mudou e so quando regressar me vou aperceber da dimensao dessa mudanca, mas muita dessa mudanca pude observar ao vivo e a cores gracas a magia da internet como todas as suas web cams, fotos digitais, messengers, e-mails, blogs... Pessoas houve que se aproximaram, pessoas houve que se distanciaram, pessoas houve que partilharam fortes emocoes no momento em que sucederam apesar de estarem a milhares e milhares de kms de distancia... o PC tornou-se definitivamente o meu melhor amigo por ser o meio de contacto com uma parte tao importante do meu mundo..., porque o meu mundo esta espalhado pelo mundo.

Bom, mais nao digo porque estou de partida para uma viagem que nao e mais nem menos que um sonho de sempre. Vou ao encontro da cidade perdida, vou ao encontro da Cidade Sagrada do Imperio Inca – Manchu Picchu. Convido quer quiser partilhar desta aventura a manter-se actualizado no meu site de fotos. Estou de partida com um mochila as costas e com muitas alegrias nos olhar... alegrias por descobrir e que convosco quero partilhar.

Despeco-me com sinceros desejos que tudo esteja bem convosco em Lisboa ou, se for caso disso, em qualquer outra parte do mundo mundial.

Beijos & Beijos
Che Augusto


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