La Revancha del Tango - Cronicas Argentinas
terça-feira, outubro 07, 2003
 
IV CRONICA DO NOVO MUNDO
Passaram sensivelmente oito meses desde que cheguei a esta bela cidade baptizada em 1536 por Pedro de Mendoza de Ciudad de Santa Maria del Buen Ayre.

Oito meses?!?! Tchiiiiiii...... como o tempo passa!!!

Desde a ultima cronica a minha vida argentina correu a uma velocidade alucinante. Foi o trabalho que o trabalho me deu, e deu trabalho o raio do trabalho! Foram os relatorios para o Icep. Foi o trabalho para o curso de web design, as aulas de fotografia, a noite de Buenos Aires, o convivio, as ferias no Rio de Janeiro, os Tugas que vieram de visita... bom a vida fluiu e o Inverno passou rapido como assim tem de ser.

Hoje vou mudar essa rotina... vou comecar pelo lado que se termina
Nao, nao e de Buenos Aires que tenciono falar primeiro, e do Rio de Janeiro. Pois e, saquei dez diazitos de ferias e fui ao Rio de Janeiro. Na cidade do Cristo Redentor fui acolhido pelo meu irmao Pedro (a fazer o 4 ano de Marketing no Rio), e nesta cidade celebrei as minhas 29 primaveras e ele as 24. Desde ja convido a verem as fotos no sitio do costume http://augusto.funtigo.com.

Adorei. Adorei. Amei. E dificil descrever o misticismo do Rio de Janeiro. Esta cidade musa de poetas e musicas imortais, esta cidade que viu nascer e crescer virtuosos da musica e que foi berco do Bossa Nova. Esta cidade que e a referencia do Samba, esta cidade que tem o Pao de Acucar e o Corcovado. Esta cidade que tem a praia de ipanema, a garota de ipanema, o maracana e o sambodromo. Esta cidade que nasceu, cresceu e vive em perfeita simbiose com a natureza. Esta cidade que respira alegria de viver e que come feijao com arroz para matar a fome e bebe agua de coco ou caipirinha para matar a sede... enfim, esta cidade que apaixona todos os abencoados que a visitam.

E apaixonou-me. Eu sei que foram so um par de dias, eu sei que quando sai de Buenos Aires chovia a potes e quando cheguei ao Rio estava um sol esplendoroso, eu sei que foram so uns diazitos de passeio em que apenas vi o “melhor”. Eu sei, mas, mesmo assim deu para sentir o vibrar da cidade. Sentir o que e uma cidade rodeada por praias fantasticas e calcadoes enormes, uma cidade que vive e convive com a natureza e em que o povo e relaxado e desinibido, conversador e afavel, irresponsavel e divertido... tudo joia meu irmao. Valeu cara!

Sinceramente dispenso o inverno. Dispenso a chuva e o frio e vento. Ok, sao essenciais para o ecossistema. Que existam, mas nao mais de umas semaninhas por ano. Ahhhh... Nada como fazer uma prainha no pino do inverno, nada como passear em Havaianas e calcao de banho nos meses mais frios. Nada, mas mesmo nada como despertar com a esplendorosa luz do sol a iluminar a casa.

Nao quero parecer ingrato para com a cidade que me acolheu. Eu sei que tenho a sorte de viver na cidade fantastica que e Buenos Aires, apenas fiquei deslumbrado com o Rio. Mais adiante falo de Buenos Aires e incluso no final pus o excerto dum artigo do Miguel Sousa Tavares que tao bem descreve a cidade. Acontece e que neste momento estou so mesmo com vontade de falar do Rio... e que me deixei apaixonar pelo cheirinho de Samba, Bossa, Sol e Praia de Ipanema.

Meu Brasil Brasileiro
So aqui na Argentina percebi a importancia relevancia e influencia do Brasil fora de fronteiras.

Acostumado que estou a indiferenca de outros povos para com o povo Tuga, surpreendi-me por estas paragens a resposta “sou portugues” tem uma reaccao muito positiva.

Ao longo das minhas viajens habituei-me e conformei-me com a insignificancia portuguesa no mundo, execpcao feita aos feitos futebolisticos do Figo e companhia limitada. Lembro de na Hungria ou Inglaterra a resposta a “Sou portugues!” ser um vago “ahhhh.... ok...”. Assim um “ahhhh... ok....” como quem diz “ahhhh.... ok... ponto final”, isto e: fim de conversa. Acho que nao vale a sequer a pena comentar a opiniao que os nuestros hermanos ou franceses ou os alemaes ou os nordicos tem de nos.... ja e mais que sabido que ou nao e nenhuma ou e ma...

Nos sabemos os nossos feitos e sabemos o fervilhar de acontecimentos(vide caso casa pia...) que e a nossa vida enquanto nacao, mas o facto e que com Portugal so se preocupam os Portugueses. O que, diga-se, ja nao e nada mau!

Bom, alguma coisa esta a ser feita no sentido de melhorar a imagem de Portugal alem fronteiras – obrigado Icep pela papel de embaixador que me atribuiste. Nao sei se serei a pessoa mais indicada para esta tarefa por nao me considerar nada representante do portugues medio (eu nem gosto de caracois!), mas aparte disso espero corresponder ao que se espera da tarefa.

Pois bem, ca na Argentina quando digo que sou portugues normalmente recebo como resposta a pergunta “Portugues de Portugal ou Portugues de Brasil?” Bom, pode variar, mas o facto e que ao contrario de ser “fim de conversa” e, pelo contrario, motivo de interesse e de conversa. Penso que tal deriva de dois motivos.

O primeiro e a predisposicao natural para a conversa dos Argentinos. Alguma vez vou fazer o teste “Sou da Quirquizia” e esperar pela reaccao. O segundo deriva da fama e influencia do meu povo irmao. O brasilero e considerado uma pessoa divertida, simpatica e conversadora, e que baila bem. Se em relacao as primeiras caracteristicas cumpro com o esperado, e neste ultimo particular que se torna evidente que sou Tuga.

A minha patria e a minha lingua
Em primeiro lugar, devo dizer que se a coisa que me transtorna e ouvir um portugues dizer “Eu nao gosto dos Brasileiros”. Antes de mais, e uma generalizacao e, como todas, ridicula, mas o que me transtorna mais nao e isso.

Considero o Brasileiro meu irmao. A minha patria e a minha lingua, a lingua de camoes. O que me faz irmao tanto de cabo verdiano, como de um brasileiro, como de um alentejano, como de um angolano. E a minha patria e a lingua de camoes enquanto eu nao me conseguir expressar tao naturalmente e bem noutra lingua para alem do portugues... quica algum dia o possa fazer na lingua de cervantes...

Nao me sinto portugues no sentido fundamentalista, alias, nem sei ate que ponto e importante para mim ser portugues. O que me faz portugues? O local de nascimento? Se assim fosse seria angolano. A nacionalidade dos meus pais? Se assim fosse teria duas nacionalidades. O local onde estou, estive, cresci, estudei, estive mais tempo? O que faz Portugues um emigra que saiu de Portugal aos 15 anos e vivei ate aos 55 em Londres? O que me faz portugues e o que nos faz a todos portugueses?

Nao sera isto de ser portugues apenas uma ideia que, de alguma forma, que serve para abstratamente transmite alguma seguranca, algum sentimento de pertenca? Nao sera o hino um simbolo, a bandeira um simbolo e nao serao ambos uma representacao de algo que eu nao sei bem o que e? Sera que me revejo nos governantes, sera que estes expressam a minha vontade, a vontade do povo? Sera que me identifico com a cultura portuguesa? Sera que satisfaz este pertencer a um grupo de pessoas com um espaco e normas e alguma linhagem em comum?

O que e um facto e que isto de ser portugues – isto de ter uma nacionalidade - esta tao enraizado no nosso ser que parece inato, algo inquestionavel. O que e facto e que isto de ter uma nacionalidade, pertencer a este grupo a que chamamos pais desperta paixoes e odios, gera gerras e disputas... pela patria tudo e permitido, pilhar, roubar, matar...

Bem sei a importancia dos primeiros anos de vida, da cultura, das tradicoes, da educacao. Mas tambem sei das capacidade do ser humano de evoluir, de crescer, se aprender, de se modificar e de nao se deixar prender a ideia e conceitos vazios. Ok, sou culpado, torci pelo Real Madrid quando jogou contra o FC Porto, mas, a verdade e que tenho muito mais simpatia pelo equipa Madrilena e o FCP, apesar de ser uma excelente equipa, nao me suscita nenhuma simpatia. Devo torcer unicamente porque e uma equipa portuguesa?

O que e isto de ser portugues que me obriga a torcer pelo FC Porto, arrotar, cuspir para o chao, falar alto e com muitas caralhadas, comer tremocos e caracois, ter uma patroa e beber muita Sagres e ter bigode. Tambem me interrogo se alguma vez estaria disposto a disponibilizar a minha vida numa guerra, a matar ou morrer por esse sentimento de pertenca de fraternidade e amor a uma ideia abstrata.

Nao. A resposta e um redondo nao... agora se me perguntam se alguma vez vou deixar de torcer pela seleccao das quinas em qualquer campeonato... tb digo que nao... e que afinal gosto deste sentimento de partilha de algo, mesmo que esse algo seja infundamentado, ridiculo e abstrato... biba portugal carago. Viva o FCP caralho, viva esse grande homem que e o Andre! Viva a sagres e o nosso marisco preferido: o tremoco!

Bandeiras Ceu e Sol
Todos devem ter uma ideia da bandeira da Argentina. Umas faixas azuis claras e outras brancas com uma bolinha amarela no meio, rings a bell? Pois bem, essa faixas celestes e brancas representam o ceu e no meio, bem no meio a bola amarela e um sol radiante, com raios e tudo! Conta a historia que quando os Paellas vieram colonizar estas paragens, olharam o ceu e criaram a bandeira. E bonito, nao acham?

Tou a imaginar a do Brasil, como havera surgido? Bom, uma coisa e certa, devem ter-se engano quando escreveram “Ordem e Progresso”... acho que nunca passou de uma manifestacao de vontades. O mesmo se passou com o “Et Pluribus Unun” a bela frase que esta inscrita bem no centro da bandeira vermelha e branca, mesmo em baixo da aguia na bandeira do Benfica... tambem aqui nunca passou de uma manifestacao de vontades.

Quanto a bandeira Portuguesa, fiz um esforco de memoria, tentei lembrar-me das aulas de historia; consultei sites; fiz pesquisa na net... e nada, continuo sem saber qual a origem da bandeira portuguesa. Verde e grena porque? Alias, sera mesmo grena ou encarnado a tirar pro bordeux? Lembro-me de uns castelos, de uns escudos e de umas quinas... mas nao sei qual a sua razao de ser... alguem me pode ajudar? Alguem pode ajudar este embaixador da cultura portuguesa no exterior a saber a razao de ser da sua bandeira?

Fado Vadio
Ja que tamos numa de simbolos nacionais, lembrei-me de um dos nossos simbolos por excelencia. O Fado. Todas as novas geracoes tem repulsa ao tradicional. Ainda bem que assim o e porque e assim que a cultura se reinventa. Aqui na Argentina aprendi definitivamente a apreciar o Fado. Estranho, nao e? Nao, nao sao as tao famosas Saudades, nao e o saudosismo da vida Lisboeta – sim que tenho Saudades, mas nao e o Fado que me reconforta. Aprendi a gostar de Fado por duas razoes.

A primeira e uma questao de logica/coerencia. Ora bem, se eu adoro o Tango em geral, gosto do Samba (musica folclorica do interior Argentino) e amo o Bossa Nova tambem devo gostar de Fado. Paso a explicar. Qualquer um deste tipos de musica sao musica de raiz tradicional e nao tem adeptos entre as novas geracoes. Normalmente os jovens acham que e coisa de cotas, coisa de outros tempos - outros tempos anteriores aos telemoveis e a net e, talvez mesmo, tempos anteriores a propria tv, ou e uma musica que lhes entrou pelos ouvido deste sempre e que a que nunca prestaram atencao... Pois estes argumentos ja foram meus e, como muita gente, cresci com aversao natural ao Fado, mas, se ja em Portugal me vinha habituando a ouvir o Fado, principalmente Fado Vadio no Bairro Alto, aqui a Cristina convenceu-me definitivamente.

A Cristina? Sim, a Cristina Branco! Fadista portuguesa de nova geracao que veio tocara Argentina gracas ao amavel convite da embaixada portuguesa, por ocasiao do 10 de Junho, dia de Camoes, de Portugal e das Comunidades. Tive entao o prazer de assistir a um espectaculo que, visto o mais possivel despido de preconceitos, foi simples maravilhoso. Uma linda voz, a linda guitarra portuguesa tocada por um dos seus melhores interpretes – Custodio Castelo, versos portugueses portuguesinhos de Camoes, David Mourao Ferreira, Fernado Pessoa, Maria Duarte... Para alem de um deleite foi um orgulho.... desculpa la o Figo, ate es um gajop porreiro, mas nao chegas aos calcanhares da Cristina, isto para nao falar da Teresa Salgueiro ou do Pedro Ayres Magalhaes.

Musica, musica!
Ja gostava de Tango antes de vir para a Argentina (gracas aos Gotan Project) e ca foi fantastico descobrir autores e a historia. Carlos Gardel e o grande interprete do Tango. Tango e Gardel sao sinonimos. Piazzola toca acordeao e a referencia internacional como compositor, mas gera controversia para os mais fundamentalistas (alterou um pouco o ritmo do Tango classico, de tal forma que raras sao as musicas dancaveis). Mais concensual e o Oscar Paiglesse. Hector Salgado e a referencia ao Piano, as orquestas classicas como a Camarata Portena e, mais recentemente Hugo Diaz - interprete de harmonica sao tambem obrigatorios para quem gosta do Tango. Para alem destes, ha a Mercedes Sousa, uma verdadeira diva da musica tradicional argentina, musica do povo, musica de intervencao tipo festa do avante. Bom chega de musica. Chega de musica porque nao tarda comeco a falar de musica Brasileira (sim pq esta cronica cheira a Brasil)... ainda comeco praqui a falar de Bossa Nova, do Vinicius, do Joao Gilberto, da Elis Regina, do Tom Jobim... e nunca mais me calo.

Dancar o Tango e que e Tanga...
Eu tentei, garanto que tentei... no total foram 5 aulas, 5 semanas consecutivas em aulas de tango. Adorei. Gostei do professor, da turma, do meu par e do ritual de comer um pancho no Peter’s depois da aula, mas o Samba estragou tudo. Depois das ferias no Rio perdi o animo para o Tango...

As aulas confirmaram algumas coisas que eu ja sabia. E um baile elegante, sensual e cativante. Os passos sao cuidadosamente desenhados por forma a que nunca se perca o supless. O Homem comanda completamente a danca a mulher segue consoante as “marcas” que o homem faz, isto e, enquanto danca o homem vai com a mao e marcando na mulher o que ela deve fazer... nao nao e a brincar, e mesmo verdade!! E quando bem feito resulta... hihihihi. Nao e que se fizer uns circulos abaixo da omoplata e simultaneamente pressionar levemente a dama faz um “ocho para delante”? E se delicadamente puser lateralmente a mao no abdomeno ela faz um “ocho para tras”? Tem piada, muita piada, parece que se esta a montar um cavalo, fazem-se os sinais e o animal obedece, hihihihi.


El Viejo Almacen
El Viejo Almacen foi o responsavel pela minha reconciliacao com Buenos Aires apos Rio de Janeiro. http://www.viejo-almacen.com.ar/

Vir a Buenos Aires e nao ir ao Viejo Alrmacem sera o mesmo que ir a Paris e nao ver a Torre Eiffel, ir a Roma e nao ser atropelado, ir a Nova York e nao ver as Torres Gemeas destruidas, ir a Budapeste e nao tomar um banho Turco no Gellert... ir a Lisboa e nao ir ao Colombo, ir ao Rio e nao ser Assaltado.... ir a Amsterdao e nao ir a uma Coffee Shop fumar droga, ir ao Porto atravessar a porto D. Luis a pe, ir a Russia e nao beber Vodka, ir a Marrocos e nao negociar, ir ao Tibete e nao levitar... bom, chega de comparacoes disparatadas e voltemos ao Viejo Almacen. O lugar e pequeno e intimista, mantem a decoracao e todo o ar dos anos 60. O lugar e do seculo XVIII comecou por ser, quem diria, um armazem, depois foi um hospital, alfandega, de novo armazem e, desde 1969 que e um lugar que se orgulha de ja ter assistido aos melhores interpretes no palco e das mais altas individualidades na plateia.

O espetaculo em si inclui um bom numero da enorme variedade de varios estilos que constituem o Tango. Ha uma orquestra com piano, dois violinos, dois bandoleones (acho que e realejo que chamamos a este instrumento) e um contrabaixo que esta do inicio ao fim do espetaculo. Intercaladamente ha quatro pares de dancarinos que dancam quer cada um a vez, quer em conjunto; e cantores que a espacos interpretam temas com voz. Ha momentos em que somente a orquesta toca. O espetaculo e sublime, nao vou entrar em pormenores porque me faltariam as palavras para descrever o show, apenas, volto a dizer, e um espetaculo absolutamente imperdivel.

Inicio da Cronica
Agora, sim, vamos ao que seria a parte inicial, partilhar um pouco da minha vivencia nesta mundo que continua a ser um novo mundo para mim.

Passaram os 8 meses e a maioria das coisas ja nao sao novidade. Algumas das coisas que tinham piada no inicio ja nao lhes acho tanta graca... aquilo que me perturbava um pouco ao inicio agora parece-me insuportavel... enfim tudo o que era novidade e ilusaoa chegada neste momento e o meu dia-a-dia. Bom, terminou o estado de graca da paixao e agora vivo um relacionamento estavel com a Buenos Aires. E esta a visao que posso neste momento transmitir: o dia a dia em Buenos de um emigra.

Vejamos um exemplo: a humidade. Buenos Aires tem uma humidade media superior a 90 porcento, ie, o ar praticamente e agua. Quais as consequencia disto? Quando esta frio fica ainda mais frio... se lhe juntarmos a arajem fresca que vem da Antartica temos o que realmente se pode chamar de “um frio de rachar”. No verao, em contrapartida, ao calor a humidade acrescenta a sensacao de abafado, um bafo quente que nos faz sentir numa sauna. Para dar uma ideia, ao terminar um banho de agua fria nao e necessario enxaguar e comeca-se a suar enquanto se esta a vestir... o normal e estar-se constantemente pegajoso.

O que tambem se altera muito com a humidade e o meu cabelo que se ja e rebelde por natureza com a humidade torna-se indomavel, selvagem... como eu gosto! Mas, para mim a mais indesejavel das consequencias e mesmo acitar as alergias. Esta estufa e um paraiso para os acares e um terror para os meus pulmoezinhos... quer no inverno quer no verao, quer no outono quer na primavera estou constantemente alergico. As consequencias foram que finalmente comecei um tratamento definitivoa asma e diminui bastante o consumo de nicotina... um maco chega-me para uma semana.

Quem em definitivo agradece a humidade e a flora. Mesmo em plena cidade e incrivel a beleza dos jardins, o conjunto de cores das plantas, a facilidade com que tudo floresce. Vamos la ver se a cannabis e os girassois se dao bem na minha casa... se nem aqui eu conseguir dar vida a umas sementes definitivamente dedico-mea pesca (uma actividade deveras interessante).

Cursos, curso e mais cursos
Por falar em actividades interessantes... se ha algo que considero de louvavel nos argentinos em geral e a aptidao e avidez que tem pelo conhecimento.

O Argentino e curioso, gosta de saber mais. Claro que muitos ha que nao passam de cuscos, ie, querem saber mais por preversidade tipo “talk show”, mas muitos outro querem saber mais para satisfazer a fome intelectual.

Proliferam por Buenos Aires cursos, os mais variados cursos. Desde a cursos de acupuntura a curso de piano, passando por cursos de tarot, de culinaria, de danca, de futebol, de yoga.... e por ai em diante. A ideia que se fica e que qualquer coisa que tenhas vontade de aprender ha alguem disposto a te ensinar. Ao mesmo tempo existe um incrivel numero de actividades em grupo, tipo grupos de teatro, grupos de relexao sobre o eu, grupos de musica, grupos de danca. A juntar a isso estao os diversos ginasios, escolas e instituicoes com o mais variado tipo de actividades. E as pessoas aderem!

Com isto tudo o que acontece e que as pessoas acabam por ter uma vida bastante activa, interessante e preenchida. As pessoas querem socializar, querem aprender, querem se divertir, querem manter a mente alerta, o corpo atraente...

Claro que muita gente prefere ficar em frentea televisao a carregar nos botoes do telecomando como quem telecomanda alguma coisa... obvio que sim. O que me parece interessante e a vontade que as pessoas tem de sair, de aprender de socializar, de viver! Estas sao as virtudes que muitas vezes faltam ao Tuga. Para o Tuga ser jovem e uma coisa que se e enquando se estuda. Apartir do momento em que se comeca a trabalhar terminou essa vida e ser jovem nao e mais que uma cada vez mais tenue recordacao. Se ha coisa que me fascina e uma pessoas adulta com espirito jovem, com vontade de aprender, sede de viver e fome de conhecer de um teenager inconsciente, mas com responsabilidades, maturidade e atitudes de “gente crescida”. Sim, e possivel.

Patria Familia e Fado
O Argentino aprendeu a contar com ele. O Argentino nao acredita no destino (que ja lhe passou diversas rasteiras), nao acredita em politicos (e com razao! Voces alguma vez confiariam num Menem??) e nao acredita que Deus por algum motivo lhe vai oferecer alguma benesse especial. O Argentino acredita em si e acredita no trabalho (atencao que roubar ou enganar tambem e trabalho, hihihi).

O Tuga e exactamente o oposto. Se vai abrir uma empresa espera pelo incentivo do Estado. So compra casa com o apoio jovem. Tem um incendio no quintal fica a espera que o Estado de um subsidio por calamidade publica. So faz obras em casa no ambito do programa da Ebhal. Para fazer um file espera pelos fundos do ICAM, se tenho um qualquer grupo de teatro quero que o Estado me deu um espaco para ensaios e espetaculos.... e por ai fora...

O Portugues, afinal de contas nunca ultrapassou o Salazarismo. Vive constantemente a contar com o Estado Paternalista e encerrado em casa porque o Salazar nao deixa sair, nao deixa socializar.

Bom, mas isto tudo veia proposito dos espectaculos “a la gorra”. Gorra quer dizer chapeu/gorro, e um teatro “a la gorra” e um espetaculo gratis mas em que quem quiser contribuir contribui (poe dinheiro na gorra). Para mim esta e uma das essencias da cultura. O artista nao pensa na retribuicao e quem e impactado pela obra e sente que o dinheiro e mereciso sente-se impelido a pagar o que considera justo. Nao ha ca subsidios nem facilitismos ou clientelismos.... o artista oferece a sua arte e quem se sente tocado por ela participa com o apoio que todos precisam: dinheiro.

Normalmente estes espectaculos sao apenas as sextas e sabados e domingos porque na, realidade, a grande maioria destes artistas tem outro emprego, tem o emprego que lhes permite pagar a casa a comida, a roupa ou medico para os filhos.

Ahhh...... a tristeza que e ver o Jorge de Silva Melo e os Artistas Unidos pedincharem e fazerem figura de tristes porque a camara decidiu que tinha de passar a pagar renda n’O Espaco a Capital”.... Em relacao ao cinema, eu nem imagino o que teria sido feito ca na Argentina com o dinheiro que foi desviado pelo Joao Cesar Monteiro para diversao dele e de mais meia duzia de perturbados como ele...

Bom... fico-me por aqui que esta cronica ja vai mais que longa.

Muita coisa ficou por contar desta linda cidade, cheia de vida e caracter que e Buenos Aires. Espero ter cumprido o objectivo a que me propus desde a primeira cronica: apresentar-vos esta bela cidade vista pelos olhos de um viajante diletante e, cada vez mais, cidadao do mundo mundial.

Restam-me agora tres semaninhas ate terminar o trabalho na Finca Flicham e ficar livre! Depois tenho 7 semanas ate ao Natal para deambular pela America do Sul: partir de Buenos Aires em direccao a Santiago do Chile e comecar apartir dai a subir a costa Pacifica ate ao Equador e depois regressar a Buenos Aires pelo interior. Stay tooned! Prometo manter o site com fotos (http://augusto.funtigo.com) vivo e bem vivo e escrever cronicas. Preparem-se para conhecer mais um pouco da Argentina, e um pouco do Uruguai, Chile, Peru, Equador e Bolivia!

Despeco-me com sinceros desejos que tudo esteja bem convosco em Lisboa ou, se for caso disso, em qualquer outra parte do mundo mundial.

Beijos & Beijos
Che Augusto
La Revancha del Tango


PD: Excerto de um artigo de Miguel Sousa Tavares sobre Buenos Aires no Publico de 04/07/03
“Buenos Aires e uma cidade que nos reconcilia com a condicao urbana, que nos lembra que as cidades podem ser construidas para o servico dos homens e que nos ensina que a dimensao e a beleza sao conciliaveis, a monumentalidade e a escala humana podem conviver juntas, os servicos e o comercio podem-se conjugar de forma perfeita com o prazer e a arte de viver uma cidade. Ao contrario, por exemplo, do Rio de Janeiro, cujo enquadramento paisagistico natural nao tem paralelo no mundo, Buenos Aires nao dispoe de trunfos naturais: nao tem costa maritima, nem um rio digno desse nome, nao tem lagoas, nem enseadas nem montanhas, enquadrando-a. Nao ha um Cristo Redentor a quem dar gracas por tanta fortuna. Aqui, tudo e obra dos homens e nada e acrescento divino. E uma cidade feita por homens e para os homens viverem. Por homens visionarios e arrojados que ousaram pensar grande, que construiram a mais antiga e ainda hoje a maior e mais bonita opera de todas as Americas - o Teatro Colon, decorado com marmores de Carrara e de Estremoz -, que secaram pântanos para plantarem os mais fantasticos jardins publicos, que os semearam de uma profusao de estatuas de pedra e de bronze (tantas que, quando ja nao havia mais herois nacionais para representar, foram dedicadas a Mozart ou a Verdi), que deitaram abaixo quarteiroes inteiros para rasgarem algumas das mais largas avenidas do mundo (a 9 de Julho e mesmo a mais larga do planeta), que, de um canal vindo do Rio de La Plata, criaram umas maravilhosas docas de pequenos edificios de tijolo vermelho, ao servico do comercio, dos bares e restaurantes e da marinha de recreio, em pleno coracao da cidade.

Em Buenos Aires convivem harmoniosamente os pequenos bairros populares antigos, territorio do tango e de uma certa rufiagem cativante, com os quarteiroes de arranha-ceus, sobrepostos por decadas sucessivas de arquitectura futurista, desde os anos 20 atea actualidade (foi a primeira cidade da America Latina a erguer um arranha-ceus, a primeira a escavar um metropolitano, em...1910!). Convivem a zona tradicional de comercio da "Baixa" com a zona de servicos e escritorios, a zona de edificios publicos em volta da Praca de Mayo e da Casa Rosada com as magnificas zonas residenciais, como Recoleta, com a sua profusao de antiquarios, galerias de arte, livrarias (abertas atea meia-noite!) e, em cada esquina, o seu cafe, que e um verdadeiro cafe, local de estar, de ver e de conversar, sem formicas, nem aluminios nem plasticos, mas sim moveis de madeira antiga, tampos e balcoes de marmore, fotografias gastas pelo tempo, homenageando os antigos frequentadores, de Borges a Fangio, de Gardel a Peron (e, de cada vez que pedir uma simples "bica", saiba que ela vem sempre acompanhada por um copo de agua com gelo, dois biscoitos e um guardanapo de papel espesso). Por isso tambem, em homenagema influência inglesa, Buenos Aires tem ainda, nao na periferia, mas em pleno centro, milhares de hectares de relvados e jardins publicos a perder de vista, com três hipodromos, dois estadios de polo, "country clubs", campos de futebol, de tenis, picadeiros e escolas de equitacao, percursos pedonais, para cavalos e para ciclistas, jardins infantis e jardins japoneses, jardim zoologico e jardins para passear caes, marinas e ate um aeroporto para voos internos em pleno centro. E todas estas zonas - a comercial, a de servicos, as residenciais e as de lazer - nao funcionam por territorios estanques, mas sim interligados, integrados uns com os outros, de modo que nao ha zonas desertas ou abandonadas conforme os horarios, antes uma cidade que e habitada, vivida e desfrutada na sua totalidade.”




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